Nessa parte do trabalho, irei falar sobre o vídeo Sobrelinhas, tratando mais especificamente das inúmeras citações que faço durante o seu desenrolar, e de que forma procurei integrar o produto final com o processo da qual ele foi inspirado. Esse vídeo tem como intenção resumir de forma visual todo o processo que sofri durante a faculdade passando uma visão artística de como o meio acadêmico, a web e o malabarismo me tornaram um explorador do design e da informação.

Começo o vídeo mostrando a dura vida daqueles que assim como eu, iniciaram sua jornada virtual por meio da Internet discada. Ela era o martírio das madrugadas. Ainda mais se você tinha a droga de um mondem que acordava a casa inteira na hora de conectar. Teve vezes de apelar pro cobertor abafar a barulheira que o maldito fazia (isso claro, antes de descobrir que tava pra desligar aquele som irritante). Hoje em dia mal se liga o PC e ele já esta conectado, quanta evolução né. Pois bem, voltemos aos tempos de carroça virtual.

Na primeira cena filmada passo uma visão minha sobre como era a Internet até eu entrar na faculdade. Ensino médio, adolescência... Passei boa parte das minhas noites vagando pela Internet vendo os conteúdos soltos pela rede. Na verdade eu só via uma coisa mesmo: pornografia. E nem adianta fazer careta, pois todo mundo vê, e quem num passou a adolescência nessas coisas não sabe o que perdeu aehaeahehaehae. Por isso quis enfatizar o vermelho na cena, assim como eram (e são) os visuais dos sites de conteúdo erótico. Dava até dor no olho.

Outro elemento que quis trabalhar nessa cena foi o teclado. Reparando bem, no inicio do vídeo eu apareço numa mesa sem teclado, alias, apareço com apenas um pedaço dele: uma única tecla. Vendo de relance nem da pra perceber que tecla é, mas fique certo que não foi uma escolha aleatória. Desmontei inteiro (eu fotografei antes pra num me perder na hora de montar aehaehae), e deixei a tecla “X” exatamente no lugar que ela ocupa em um teclado. Mas porque o uso dessa letra? Enfatizando ainda mais o processo erótico/virtual, a letra “X” faz parte de qualquer cabeçalho de site pornô (sempre em trios). Por isso também eu fico apertando sempre três vezes. Sejamos claro: até eu entrar na faculdade o teclado só tinha uma letra mesmo. Internet pra mim era isso, e pronto.

Com o passar do tempo vou usando mais das possibilidades que a web oferece e começo a descobrir o mar de informações que existe. Posso ate dizer que a minha vida clareou, mas não sejamos tão infantis. O fato de o vídeo ir clareando, é que como fui fazer faculdade, acabei tendo que me acostumar a usar a web de dia, na Unesp, pois não tinha nem linha telefônica na republica. Com a descoberta de novas possibilidades o teclado foi ganhando outros caminhos (novas teclas), e a navegação pela web passou a se estender por outros domínios.

Fazendo estagio e usando a net. Para a procura de tudo um pouco, sai clicando atrás de coisas cada vez mais diferentes. Em meio a tudo isso descubro a modalidade do ioio de rolamento e inicio uma busca por mais informações. Visitando fóruns especializados, sites de vendas, portais de vídeos e muito MSN depois, adquiro o meu primeiro equipamento. Nesse momento faço uma brincadeira com essa encomenda, pois ela demorou um mês pra chegar, e pelo jeito que foi entregue aqui em casa parece que veio sendo chutada pelos correios. Aliás, praticamente toda a encomenda de ioio vem com a caixa em frangalhos. Creio que os carteiros não gostam muito desse tipo de conteúdo aheaehehheha

Com o ioio adquirido, comecei a saga de baixar vídeos e teclar o fórum em busca de mais manobras. Junto com tudo isso, fui adquirindo mais e mais material, tornando minha vida um verdadeiro emaranhado de linhas e brinquedos. O emaranhando de linhas nesse caso entra mais a dificuldade de quem pega um ioio pela primeira vez. Você acaba se perdendo na linha e esse processo faz com que o seu treino se torne um verdadeiro desafio. Muitos desistem, mas os que sobrevivem – e se libertam das linhas – fazem o que todo mundo gosta e tem vontade de fazer um dia – um vídeo com suas manobras.

Nesse momento você deixa de ser um mero expectador e passa a contribuir com aumento no numero de exemplos e estudos da arte do ioio. Ou seja, você passa a fazer parte daqueles outros vídeos que tanto assistia e venerava. Lidando com cores, busquei ir alterando aos poucos a saturação do vídeo, onde em um primeiro momento uso os tons quentes para falar do espaço real, e à medida que vou entrando na web, altero pros tons de azul. Mais uma vez o uso dessas cores tem uma explicação: Na casa de meus pais, onde iniciei minhas brincadeiras pela web, o PC ficava na sala, que tinha o amarelo como cor das paredes. Acostumado a usar as lâmpadas tradicionais, o cômodo ficava mais amarelado ainda, dando sempre a impressão de quente. No caso do azul, uso essa cor por achar que a Internet tem essa tonalidade. O Windows é azul, o Internet Explorer também e até mesmo o site que eu tinha e-mail – o IG – sempre foi azul. Tudo bem que os sites vermelhos são bem mais interessantes, mas em se tratando de exemplificação por cor, o azul representa muito mais a web.

Em meio a toda essa serie de informações o fórum vai ganhando uma quantidade incrível de informações tornando-se muitas vezes um espaço imenso e que nunca para de se estender. Com o vai e vem das paginas do fórum mostrado no vídeo, procuro passar o vai e vem dos assuntos e como a informação ali vai sendo adicionada de modo desenfreado, ate mesmo durante um acontecimento, como é o caso do campeonato de ioio. Minutos antes do inicio da competição é possível ver varias mensagens sendo postadas. Frases que vão desde desejos de boa sorte, até mesmo notas de ausência de algum participante.

O campeonato em si é uma verdadeira festa. Com jogadores vindos de diversas partes do Brasil, é nesse momento que o pessoal tem a oportunidade de ver ao vivo aquelas manobras que só pareciam existir na web. E ai vira um verdadeiro encontro de apreciadores da arte das cordinhas. Aos que nunca foram á um encontro o inicio é amedrontador, com todo aquele pessoal jogando muito e conversando como se eles se encontrassem todos os dias... Na verdade se encontram, mas pelo fórum. Aos poucos o medo vai sendo deixado de lado, e entre uma olhada e outra logo você já está integrado á um bate papo.

Com isso, tudo que se restringia ao fórum passa a ser real, onde de fato, é possível se conhecer a outra pessoa. Muitos se comunicam regularmente pela web, trocando informações e manobras, mas nunca se encontraram pessoalmente. O campeonato nesse caso vai muito mais que uma competição, é a possibilidade de amigos virtuais finalmente se encontrarem de verdade.

Para resumir essa cena, fiz uma composição nas quais os avatares das pessoas começam a sumir. Meu orientador até comentou: é o ponto máximo do vídeo. Concordo com ele, mas acredito que não seja apenas do vídeo, mas também da minha vida como um amante dos ioios. Ver as manobras mais difíceis sendo feitas por aqueles que só existiam em vídeos, é algo indescritível.

Nem todos aparecem pra competir (eu, por exemplo, sou um desses), então nas edições que compareci, me dediquei a registrar os momentos mais bizarros, estranhos, divertidos... E mesmo assim eu faço parte da competição, pois no fim tenho as apresentações de todos, prontos para virar um vídeo sobre as mais recentes edições dos CBs de ioio (CB = Campeonato Brasileiro).

Desde meu primeiro CB até hoje, vejo tantas coisas diferentes, que saio de lá pronto pra treinar e evoluir ainda mais. Foi justamente logo após o primeiro que ganhei coragem e arranjei um diabolo. E de volta a Bauru, tive a oportunidade de treinar com outras pessoas, que estavam dispostas a aprender e ensinar tudo que sabiam.

Por isso meu vídeo termina numa típica tarde de domingo no Vitória Régia. È lá que eu me dedico aos estudos de novos malabares e é claro, novas manobras de ioio. Pra mim, é muito importante deixar claro todo o caminho que percorri, indo a fundo na internet e depois saindo para o mundo exterior compartilhar e vivenciar todo o aprendizado que achei na web.

Posso dizer que fui longe nessa tal vida virtual, mas em determinado momento isso já não tinha a mesma graça de antes. Senti vontade de sair daquilo tudo, da telinha azul, do MSN e de toda essa coisa que vai nos prendendo aos poucos. Querendo ou não, a internet é um novo meio de entretenimento e informação, mas a forma com que muitas pessoas lidam com isso beira uma atitude doentia. "Estar conectado"... É mesmo tão necessário? "24h on line" realmente te faz bem? "450 amigos no orkut"... São mesmo seus amigos?

Qual o limite disso tudo? Existe um limite? Isso é um questionamento de cada um, e antes que você comece a pensar se estou certo ou errado, só estou aqui pra mostrar o caminho que percorri. Nessa nova ordem de consumo e de conectividade cada um deve achar o que melhor lhe satisfaz. Eu achei o meu, tente achar o seu.

A todos os conectados, um bom dia.

 

Até um próximo "on line" aehaehaehh

 

 

bozobozoca.com____Felipe Pellisser Albergard_____bozoca@gmail.com